Crónicas de Nárnia

Não fui ver o filme, confesso. Não o fui ver por teimosia, por medo de que a imagem cinematográfica destruísse a da minha juventude recente.
Conheci "O Leão e a Feiticeira Branca" (era assim o título de capa) em 1976, num daqueles velhos liceus inaugurados no tempo da 1ª República. A biblioteca tinha paredes altas, pesadas mesas de madeira escura e um silêncio de catedral. Ao fundo, mal se entrava, um pequeno armário de portas envidraçadas chiou quando o abri. Lá dentro estava um livro, entre outros, de capa envelhecida pelo manusear dos anos, impregnado de cheiro a naftalina. Abri-o, e apaixonei-me porque nunca tinha lido coisa assim. O final fulminou-me.
Durante a II Guerra Mundial e para fugir aos bombardeamentos sobre Londres, quatro crianças vão viver para uma casa no campo. Uma delas, ao esconder-se num guarda-fatos, entra num outro mundo...Nárnia. As outras crianças acabarão por segui-la e viver uma aventura impar, pejada de personagens míticos, batalhas sagrentas. O final é um pouco estranho e deixou-me sempre uma certa sensação de tristeza - após o percurso de toda uma vida, os personagens voltam ao ponto de partida e pouco mais que alguns minutos tinham passado desde a sua entrada no guarda-fatos. Para conto infantil há um não sei quê de tempo vivido e perdido. O retorno à estaca zero, ao mundo real, é o corte com o de todo impossível, mas desejável - a aventura sonhada, vivida, num espaço paralelo de fantasia que queremos nosso, sem o ser.
As "Crónicas de Narnia" não se limitam a um guarda-fatos e a nossa imaginação, se quiseremos, também não.
2 Comments:
Não li as Crónicas nem vi o filme. Li o(s) seu(s) post(s) e de alguma forma fui-me identificando (o fantástico na nossa meninice, as corridas pela manhã com os miúdos, as manhãs cinzentas que outrora traziam mistério e agora encombram-nos, por vezes, a alma, outras alturas, nem as vemos).
Há coisa de um ano descobri Ursula Le Guin (Ed. Presença). Maravilhei-me no fantástico dela
(ainda não desisti da fantasia mesmo sendo mãe de um adolescente de 13 e uma menina de 8).
No livro, o Feitiçeiro e a Sombra (penso que é este o nome do 1º de 4), Ursula consegue misturar o fantástico cim a reflexão. Está na colecção Estrela do Mar (penso) mas de modo algum é um livro juvenil, na minha opinião.
Mesmo em relação a Nárnia, e na retoma ao início, como acontece sempre em todos os livros do fantástico onde há uma passagem para um mundo paralelo, é na minha opinião (um pouco repetitivo dizer sempre isto mas já me acusaram por aí nos blogs que me imponho, quando tentei abreviar) que tem de ser condição, por um motivo, e passo a explicar:
- O fantástico são como os livros de cavalaria, a luta do bem contra o mal onde o bem tem de prevalecer
- Para que o bem prevaleça existem provas a ser superadas
- Quando são, o herói ganha;
No retorno à realidade, no cado do fantástico, agora com uma nova dimensão psicológica, está apto a encarar a vida. Por isso, tem de regressar ao ponto onde deixou antes de desaparecer.
(gostei muito do blog, Vou aparecer mais vezes)
Digamos que, muitos contos juvenis (ou talvez não), acabam por conter implicitamente uma "lição" - ao longo da vida somos postos à prova, temos de lidar com situações positivas e negativas e o nosso "crescimento" depende disso.
Obrigada pelo seu comentário. Gostei bastante. Ah...e tomei nota da Ursula Le Guin.
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